Demarte Pena: “Ser da família Savimbi, não significa que tinha de seguir a política”

Pelo histórico familiar, Demarte Pena tinha tudo para fazer sucesso na política, mas é nas artes marciais mistas que quer deixar o seu legado, e apresenta as razões que o fazem não optar pelas pegadas do seu avô Savimbi. O atleta é dos melhores lutadores de MMA do mundo e mantém a invencibilidade no EFC com 13 títulos. The Wolf (O Lobo), como é conhecido nos ringues, fala à Carga sobre os seus projectos, sonhos e motivações.

Queriamos antes felicitá-lo por mais um  ano de vida celebrado recentemente. A aposentadoria parece começar a se aproximar, tem pensado nisso?
Me aposentar ainda não. Só tenho 31 anos. Acho que até aos 37 é uma boa idade para parar com isso tudo. Mais cinco, seis anos chega.

Mantém a invencibilidade e o título de melhor peso galo com um total de 13 vitórias. Que outro título gostaria de adicionar à carreira?
Próximo ano quero treinar um pouco mais para ir noutras organizações. Quero ir à Europa e chegar até à UFC, a melhor e maior organização do mundo de artes marciais mistas. Com o trabalho que estou a planear para o próximo, com certeza, vou atingir os meus objectivos.

Seu avô Jonas Savimbi foi dos políticos mais importantes do país e seu pai, o General Ben Ben,também. No futuro pensa em seguir a carreira política? Penso que esta é uma nova fase do nosso país e, ser desta família, da família Savimbi, não significa que tinha de seguir rumo da política. No desporto eu consigo atingir mais pessoas do que na parte política.

Por que razão decidiu seguir esta carreira? Era sempre seu sonho ser um lutador?
Sempre gostei de artes marciais, mas nunca cresci a pensar que seria um lutador profissional, achava ser uma loucura. Foi algo que aconteceu por acaso e tornei-me profissional em 2011.

Com que frequência vem a Angola? A propósito o que sabe sobre a música e os músicos angolanos? 
Tenho amigos músicos. O Yuri é meu amigo. E conheço outros que me seguem no Instagram. Gosto do C4Pedro. Gosto do que eles fazem pelo país.

É frequente antes da competição procurar-se por alguma fonte de inspiração, uns ouvem música. Tem sido o seu caso?
O que é interessante é que muitos lutadores quando estão para lutar, ouvem músicas muito agressivas, mais violentas, com alguns disparates. Mas eu prefiro as mais calmas. Nestes momentos ouço Andrea Bocelli, Yuri da Cunha ou Bonga. Especialmente na fase de treino e de luta, porque quando se está dentro da gaiola é preciso muita calma, se estiveres muito nervoso, não consegues fazer boas decisões.

O quê que não se deve esquecer antes de entrar para o ringue? 
Quando se está aí dentro o foco é o oponente. Mais importante ainda é não esquecer o teu próprio potencial.

São 13 títulos. De que forma podemos beneficiar desta experiência? Não pensa em abrir uma academia em Angola?
Já tenho academia aqui na África do Sul. Treinamos crianças e também tenho objectivo de fazer uma parceria em Angola. Penso em abrir também ginásios.

Falando ainda sobre os ringues, que adversários foi obrigado a buscar inspirações no espírito dos seus ascendentes? 
As minhas duas lutas mais difíceis foram contra o Wesley Rack e EFC 14 e Van Zyl EFC 19. Foram oponentes muito duros.  Zyl deixou-me cair no primeiro e segundo assaltos. Mas perto do fim, consegui vencê-lo.

Sempre que termina uma luta, o que lhe vem à cabeça?
Antes da luta há sempre aquela dúvida será que realmente vou ganhar. E quando você ganha pensa uff ganhei yeah. Isso é a primeira coisa que vem à cabeça. Aquele huff, yeah consegui!

Já esteve desiludido pela falta de apoio por parte do governo. Em 2018 recebeu uma menção honrosa, fruto do seu contributo em prol da pátria. Já se pode dizer que os apoios de que se queixava começaram a surgir?
Sim 2018. Mas a realidade é que no nosso país não apoiam, principalmente na parte do governo. Não falo só de mim. devia se fazer mais, mas não se deve esperar muito, porque isso já não aconteceu no passado, não podemos esperar que agora possa acontecer.

Não pensa em seguir a carreira política. Em que se vai dedicar após abandonar as competições?  
Política realmente não me interessa. É um jogo muito complicado e cheio de mentiras; muitas promessas falsas. Esta é a nossa realidade. Os políticos sempre falam que vão fazer e não fazem e os querem fazer nunca ficam no poder. Tenho agora a minha marca de equipamento de treinos, faço luvas. Me interessa mais o comércio do que a política.

O que faz nos tempos livres. Tem algum catálogo musical?
Não tenho muito tempo no meu dia para ouvir músicas, mas quando posso ouço. Trabalho muito. Estou a ouvir a nova música do C4 Pedro, “Pele Negra”. Não tenho um catálogo longo. (risos)

Seria mais complicado se lhe perguntasse se conhece algum grupo de  músicos da nova geração em Angola. 
Não posso mentir, não conheço (risos). Não conheço. Nem tempo de ver televisão (risos). Fico muito tempo a treinar e a impulsionar a minha marca de equipamentos.

Vive na África do Sul há 18 anos, inclusive há jornais a referenciarem-no como sul-africano. Quando é que pensa viver em Angola? 
Há muitos meios a me referenciarem como sul-africano. Mas eu nem sequer consegui adquirir traços dos sul-africanos. Penso como angolano. Vivo aqui porque, cá a vida é muito mais fácil. Com o pouco aqui dá para fazer muito. A vida em angola é muito difícil. Aqui, eu consigo no mesmo dia sair de Joanesburgo para Cape Town, Dublin e voltar a Joanesburgo de carro. Aqui não é preciso ter muito dinheiro para ter uma vida humana.

Foi obrigado a repetir a luta com o sul-africano Sayed, por suspeita de doping. Quer contar sobre o que aconteceu realmente?
Eu tinha um patrocinador que me dava produtos mensalmente. Normalmente esses patrocinadores adicionam substâncias ilegais nos produtos para venderem mais. A caixa que recebi mostrava que nada era ilegal, aliás, antes da luta, somos testados. No mesmo dia que isso aconteceu, eu sabia que seria testado, como fazem sempre e foi detectado algo que não estava na etiqueta, mas felizmente se comprovou que não houve nenhuma culpa da minha parte. É daquelas coisas de estar sozinho. Mas agora vou poder lutar de novo.

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