3ª Webinar da Universidade Hip-Hop discorre sobre o tema “Hip-Hop é uma Kultura Urbana e não um estilo de música”

As actividades que começaram na passada segunda-feira, têm sido realizadas no âmbito do projecto “Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop”. Até ao dia 24 de Maio uma série de acções online estão programadas, e contemplam performances, fóruns de discussão e Webinars com distintos convidados dos 4 elementos núcleo da Kultura Hip Hop . Cláudio Silva, ex-reitor da Universidade Hip Hop, falou à Carga Magazine sobre as actividades que ainda estão por vir, em torno desta celebração.

Em que consiste a semana de apreciação da Kultura Hip Hop ?
A Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop, resulta da Declaração de Paz de Hip Hop, em que no seu princípio numero 9, indica que toda a terceira semana de Maio, praticantes de algum elemento da Kultura Hip Hop, apreciadores e estudiosos do Hip Hop são recomendados a refletirem em torno das suas contribuições culturais, sociais e apreciarem os elementos e princípios da Kultura Hip Hop. Organização ligadas a Kultura Hip Hop, realizam em todo mundo actividades que valorizam a exploração e prática dos elementos desta Kultura.

Porquê que adoptaram a grafia com o K, invés do convencional?
A liberdade conquistada por este movimento cultural, permitiu que assim fosse desprendendo-se da caixa de subcultura anteriormente imposta. No entanto, está grafia (Kultura) para referir-se ao Hip Hop, foi validada pela Unesco no dia 16 de Maio de 2001 quando oficialmente reconhecida como uma Kultura internacional de paz e prosperidade, através do documento citado (Declaração do Paz de Hip Hop).

Enquanto mentores do projecto, como olham para o estado actual desta Kultura, no nosso país?
Ainda não conquistou oficialmente o seu devido espaço, como em outros países onde entre as consultas sobre políticas públicas têm-nos como principal referência da sociedade civil, considerando o nível de envolvimento para identificação e resolução de problemas comunitários, mas estamos caminhando para esta direcção em passos largos.

Por outro lado, temos os artistas realmente envolvidos e comprometidos com a Kultura Hip Hop com a sua arte actualmente classificada como “Edutament” e temos um outro grupo de praticantes de algum elemento sem o comprometimento e que pela exposição social parece representar o todo, mas por não se identificarem com a Kultura Hip Hop acabam ficando de forma passageira ou superficial. Em resumo diria que para a Kultura Hip Hop estamos muito bem em qualidade, mas não tanto para quantidade.

O que estará na base desta fraca aderência?
O baixo número de praticantes comprometidos com a Kultura Hip Hop, acaba sendo espelho do posicionamento social juvenil diante de qualquer compromisso que trabalha em prol de uma comunidade, com disciplina, rigor, disponibilidade de tempo e cumprimento de regras sem que isto seja garantia de exposição pública. Há um outro grupo que também por desconhecimento sobre o Hip Hop como kultura urbana e não como um estilo de música, por isso a importância de eventos como a Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop em que por cada dia da semana estaremos a conversar sobre um elemento diferente, olhando questões como o envolvimento de mais praticantes, a divulgação dos propósitos e a profissionalização destes.

Está a afirmar que a falta de compromisso é uma característica da juventude angolana?
De uma fracção da juventude, quando se trata de trabalhos em prol da comunidade, principalmente quando este comprometimento não se reverte em ganhos financeiros ou exposição mediática.

No que toca ao comprometimento com a Kultura Hip Hop , enquanto uma fracção da sociedade, vamos encontrar no Movimento Hip Hop em Angola, características que temos em abundância na sociedade, e entre elas tem esta falta de comprometimento com a disciplina, rigor, cumprimento de regras e empenho para o bem comum sem recompensas financeiras ou de exposição pública.

Falando particularmente do Rap, recentemente o Valete afirmou que “Angola é o verdadeiro centro do rap lusófono”. Está de acordo?
Se olharmos apenas para a música Rap, estamos bem representados em diferentes campos, música com preocupação social acentuada, música com teor de entretenimento (Club/party content) e outras onde são exploradas todas as ferramentas de composição e vocal deliver de Rap, mas é importante considerarmos que o Brasil pela dimensão demográfica de praticantes e pluralidade de abordagens, tem maior potencial para ser o centro do Rap Lusófono. Mas só percebendo a perspectiva apresentada pelo Valete poderia concordar com a afirmação.

A abertura oficial da Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop foi há dois dias, deu para medir o quanto o público em geral tem noção desta “comemoração”?
Conseguimos perceber que o público sabe que existe uma celebração da Kultura Hip Hop nesta altura, mesmo não dominando os porquês em torno dela. Mas existe a noção de que em Maio celebra-se a Kultura Hip Hop .

Qual a sua opinião sobre as novas formas de entretenimento, face ao covid-19?
Antes dessa condição de isolamento social imposta pelo Covid-19, em vários sectores sociais estavam a ser discutidas a sociedade 4.0 onde a tecnologia seria tendia para impor-se mais do que já estava nas relações humanas. A Kultura Hip Hop não estava fora disso, como exemplo tivemos os eventos realizados pelo Blog Hiphopangolano.net direccionado para Rappers, produtores musicais e interessado, em que esteve em análise o mercado de músicas digitais. A própria revista carga tem o novo formato adaptado a realidade 4.0, no entanto o Covid-19 veio acelerar este processo para as outras áreas o que aproximou muito mais os artistas dos apreciadores das suas artes e tem sido benéfica, diferente da ideia que muitos têm que depois de passar o período de isolamento social, as coisas voltarão ao normal, informamos que não será bem assim, porque esta é a nova realidade, depois apenas se juntarão os eventos/entretenimento misto (presencial e online).

As actividades da Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop decorrem todas online, será que conseguirão alcançar a dimensão desejada?
As actividades da Semana de Apreciação da Kultura Hip Hop 2020, serão todas online, e apesar de pecar pela falta do calor humano em tempo real e ainda pelo baixo grau de usuários de internet per capita em Angola, a realização online prevê ter um alcance bem maior, pois poderemos chegar a pessoas em qualquer parte do mundo e com maior disponibilidade para acompanhar e participar já que nos encontramos quase todos em casa.

Estão programadas uma diversas actividades até ao dia 24, de que formas é que serão distribuídas no decorrer da semana?
Segunda-feira tivemos a abertura com uma conversa com representantes da mídia do Hip Hop em Angola, em que participaram representantes dos Bloggs (Cenas que Curto e Hip Hop Angolano.net), radialistas pelo Vozes e Beats (Benguela), Rádio Eclesia (Kwanza Sul), e do programa de TV 2 Contra 1. Em que foram abordadas questões ligadas a linha editorial de cada um deles, imparcialidade na publicação, transversalidade e inclusão de todas as manifestações artísticas do Hip Hop e ainda deu para uma recolha de recomendações aos artistas para maior e melhor divulgação dos seus trabalhos.

Ontem Terça-feira, reservamos o dia para o Breakin ou Break Dance, em que a partir das 16h00 teremos performance o line com o melhor de Breakin, Poppin e Krump Nacional. Juntamos para uma conversa sobre a condição actual do Break Dance em Angola (diagnóstico, pontos críticos e propostas de melhoria).

Hoje Quarta-feira, o será exclusivo para os Graffiteiros, que vão fazer pinturas em directo as 10h e 14h horas, e as 18h00 estarão a conversar sobre como manter activa a arte de Graffiti em Angola, como atrair novos praticantes, e como se adaptar a realidade económica do sector.

Quinta-feira (21 de Maio), os Emcees vão assumir os lives a partir das 16horas com performances on-line, e as 18h00 teremos a conversa sobre o Emceein, onde olharemos para as principais diferenças entre o Emcee, o MC e o Rapper, vamos falar sobre a relevância do conteúdo da música para um Emcee. Vamos também fazer o diagnóstico, identificação de pontos críticos e propostas de melhoria.

Dia 22 de Maio por ser uma Sexta-feira, reservamos para o Deejayin, e vamos ter a partir das 16h um desfile de Deejays de Hip Hop que vão meter música, demonstrar técnicas e as 17h30, haverá a conversa sobre a praticidade em Angola do Deejayin exclusivo para o Hip Hop, e como momento alto do dia, a troca de experiências com o Dj Erick Jay actual campeão on line do mais conceituado concurso de Deejayin (DMC) a partir das 19h00.

O sábado, reservado para o Street Knowledge, nos propusemos a trazer ao público, a visão social do Movimento Hip Hop em Angola, um momento em que diferentes Hiphoppas, vão se juntar para apresentar a visão do Hip Hop sobre questões de interesse público como saúde, educação, liberdades de comunicação e locomoção é outros de igual relevância. Tudo a partir das 18h00.

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