Adelino Caracol: O pioneiro desconhecido do movimento Hip Hop angolano

O 47° aniversário do Hip Hop, que se comemorou na semana finda, trouxe ao de cima um facto irrefutável sobre a gene do movimento Hip Hop em Angola. Nas redes sociais, Nelboy Dastha Burtha felicitou o “movimento” fazendo referência a uma figura incontornável no surgimento dessa cultura no final dos anos 80.

Para muitos, foi uma merecida homenagem, enquanto para outros, uma surpresa passível de exercício investigativo. Falando à Carga, Nelboy reoxigenou o advento do Hip Hop no país, remontando para o ano 1988 e 1989, altura em que Adelino Caracol dava espaço a jovens ávidos por demonstrar as suas habilidades em diferentes expressões artísticas.

Pela mão do conhecido homem do teatro, o movimento emergiu com concursos de streetdance denominado `Concurso de Rap´, que eram realizados no anfiteatro das escolas Nzinga Mbandi, 1ª de Maio, Ngola Kiluanji, Kanini e Mutu ya Kevela, onde participavam diferentes gangs ou grupos de todas as partes da cidade, nomes sonantes como Black Rap, Canibais, Black Indians, DHL, entre outros mais disputavam em eliminatórias até chegarem a fase final, fazendo deste evento o primeiro palco de alguns pioneiros do Hip Hop nacional.

Para Nelboy, é necessário que se faça um esforço estrutural para se resgatar essas verdades e, de facto, dar a quem merece os royalities. Pretexto mais do que suficiente para trazermos o testemunho do pioneiro e principal articulador para o surgimento da cultura Hip Hop em Angola desconhecido pela actual geração

Adelino Caracol: “É necessário criar um espaço para discutir a história e recordar memórias… tem havido algumas tentativas, mas é necessário fluidez e continuidade.”

Como começa a sua ligação com o movimento Hip Hop nacional?
No Final dos anos 80, com a popularização dos filmes sobre street dance que popularmente era conhecido como break, em todo mundo diversas gangues foram criadas nos diferentes bairros e nós sendo organizadores de eventos decidimos nos associar a este movimento que estava a emergir.

Como funcionava esta dinâmica?
Tinham que ser muito criativos, com as próprias criações, mas também havia a edições em que tinham que imitar grupos americanos. Isto no final dos anos 80.

Organizávamos as disputas entre grupos de diferentes bairros, desde os Canibais que vinham da Vila Alice, Os DHL aqui da Sistec, os BLACK INDIANS do Primeiro de maio Maculusso de onde surgiu o Nelboy, Os Black Usa, os Black Rap, O BRAGA de onde saiu o rapper Braga, e muitos outros grupos vindos de vários bairros de Luanda, como era um concurso eles estavam encarregados de trazer as claques para os apoiar

O que lhe motivou a dirigir estes concursos?
Víamos nos bairros, movimentos isolados de vários grupos e, na altura, achámos que poderíamos dar corpo a isto, além de Rap, também realizávamos concursos de Miss e etc.. Percebemos então que, muitos jovens encaravam isto como uma coisa muito séria e notámos, que poderíamos tornar isto numa coisa muito mais compartilhada e na realidade foi o que aconteceu.

Sendo um movimento muito marginalizado desde então, como é que contornavam as adversidades?
Era uma altura de despontar, e eu não tinha apoios para poder levar o barco, então fazia tudo sozinho com a minha equipa, transpúnhamos as adversidades com senso de disciplina organizacional, pois nós dependíamos de nós mesmos naquela altura ainda não estávamos no mono partidarismo, e tudo era difícil quando assunto era dar espaço para os jovens se expressarem .

Estamos a falar de uma época em que as informações eram ainda diminutas…
Na realidade, toda recolha de dados para este apogeu era com base na cultura americana e todos nós acompanhávamos, quer nós organizadores, quer os grupos. Até porque as pessoas que faziam Hip Hop, já argumentavam com propriedades e falavam com fluidez sobre o movimento Hip Hop. Tanto é que muitas vezes, o concurso acabava, mas o debate continuava até longas horas, um debate rijo… e é daí que nasce o Phathar Mak, Kool Klever, Nelboy Dastha Burtha.

Estes são os nomes mais sonantes desta fase, ou seja, quando os B. BOYS começaram a cantar?
Na primeira fase dos que participaram nos concursos de dança entre 87 a 1991, saiu o Nelboy em 1990 que começou a fazer os primeiros experimento de rap a fazer freestyle antes do grupo dele dançar.
Já na fase que nós fazíamos não mais “Concursos de dança Rap” mas sim shows de variedade, já estou a falar de finais de 1993 lá estavam os SSP que na época eram Big Nelo, Paul G e Bruno T, os Soul’ ess Busters grupo do Nelboy, Mavy e Dj Muady que foi o primeiro grupo a ter Dj de rap, os GC UNITY do Klever e Gangsta DU, e uma dezena, pois naquela época não eram muitos.
Sem esquecer o DIZZY D, que foi o primeiro rapper a dar uma entrevista e a cantar ao vivo na rádio luanda em 1991 com seu grupo de musica variada, Os Curiosos.

O que poderá estar na base desta falta de informação, porque afinal o homem que é visto com o rosto do teatro em Angola, também é um pioneiro do Hip Hop nacional?
Primeiro é que não sei se é por estar muito ligado ao teatro,  segundo é que as pessoas em Angola têm grandes problemas de comunicação e de falar sobre os outros, normalmente falamos mais sobre nós, e nos esquecemos onde saímos, a nossa origem, acho que isso. E talvez o facto de haver pouca informação, até mesmo para os jornalistas ligados a cultura. Muitas vezes esquecem-se de ser profundos, fala-se mais de temas ligados a actualidade e não se busca a raiz das coisas.

Já sendo uma voz autorizada, qual a analogia que faz do cenário hipopeano daquela altura e da actualidade?
São épocas diferentes, naquele tempo procurava-se muito mais a originalidade e creio que a partir destes concursos, criou-se um movimento muito mais colectivo e, apesar das diferença, havia união na criação do movimento.

Está a dizer que hoje se assiste a uma falta de união dentro do movimento?
Não diria falta de união, mas sim o interesse de cada um ser melhor do que o outro, invés de se pensar num todo, e olhar para isto como uma possível profissão para que cada um possa ter o seu sustento e rentabilidade.

Na sua óptica, o que pode ser feito para que se resgate esta parte da historiografia do Rap nacional que não se difunde?
É importante que haja líderes e que a liderança não seja apenas uma em termos de retórica, mas que seja de acção. É necessário criar um espaço para discutir a história, recordar memórias. Às vezes, tem havido algumas tentativas, mas é necessário que tenha fluidez e continuidade.

E se tivesse que indicar alguns nomes para esta tarefa, quais seriam?
Há nomes que hoje são incontornáveis, como Kool Klever, Phathar Mack, Djeff Brown -Que naquela altura já era um grande percussor e falava do Hip Hop com propriedades-, o Nelboy Dastha Burtha -Tirando o tempo que esteve no Brasil, é um lutador, a nível do Hip Hop nacional. São estes os nomes que tenho como referência.

Quanto a si, como gostaria de ser lembrado dentro do cenário Hip Hop?
Gostaria de ser lembrado como uma figura preocupada a assumir responsabilidade de tornar realidade uma vontade e um sonho da juventude angolana naquela fase. Gostaria de ser lembrado como alguém que tirava os sonhos da cabeça para torná-los reais.

E se tivesse que contar a história do Hip Hop nacional numa peça teatral, aceitaria?
Com certeza que sim, a nossa cultura precisa destes arquivos, é uma coisa que também podia se enquadrar na revolução. Porque foi uma revolução que, de facto, começamos. Hoje a revolução tem mais aderentes, chamou mais atenção e se impôs, porque estas pessoas que referi continuam aí com muita vontade e jovialidade em termos de criação e de se doarem ao movimento Hip Hop. E, embora eu esteja desligado, penso que seria uma miscelânea que seria algo maravilhoso e importante, penso que Angola já clama por um musical ligado à história de qualquer coisa, e isto seria um máximo.

as cargas mais recentes

Mário Gomes: O presente e o futuro entre os guitarristas

há 3 meses
Dom Caetano, Filipe Mukenga consideram-no o melhor guitarrista da actualidade. Saiba mais sobre este pequeno/grande músico na entrevista concedida à Revista Carga.

Daniel Mendes: “Com ou sem pandemia o Angola Music Awards acontecerá em 2020”

há 6 meses
A faltar dois dias para o fecho das inscrições, Daniel Mendes fala à Carga sobre a presente edição do Angola Music Awards, que traz como destaque a categoria música dos PALOP. Doravante, o evento passará a intercalar entre Angola e Portugal. O responsável explica por que razão a gala era realizada em Portugal, apesar de prestigiar a música e os músicos angolanos e lança as novidades do próximo ano 2021.

Morreu Jack Sherman, antigo guitarrista dos Red Hot Chili Peppers

há 3 meses
Sem divulgar a causa da morte do artista aos 64 anos, a notícia foi avançada na página oficial do grupo no Twitter.

Morreu uma das figuras do Rock nos anos 60

há 1 mês
Spencer Davis, músico britânico fundador da banda The Spencer Davis Group, um dos responsáveis por êxitos como “Gimme Some Lovin’”, e do grupo Traffic, morreu esta terça-feira, aos 81 anos, num hospital em Los Angeles.

ZAP passará a atribuir prémios a músicos e apresentadores

há 3 meses
Artistas e personalidades que se destacam na área de televisão passarão a ser distinguidos anualmente com prémio Globos Zap. A iniviativa é oficializada hoje com a abertura das votações e o anúncio da lista dos primeiros 12 nomeados.

Um hino ao Kuduro

há 6 meses
Depois do Rap, agora foi a vez do Kuduro e os convidados foram Dj Znobia e Dj Havaiana, duas grandes referências deste género musical, produtores de muitos dos maiores sucessos cantados por Sebem, Puto Prata, Nacobeta, Noite e Dia entre outros.

Victória dos Lakers coloca LeBron James a um passo de Michael Jordan

há 2 meses
A vitória, nesta madrugada, dos Lakers sobre os Heat fez de LeBron James o primeiro jogador na história da NBA a conquistar o prêmio com três franquias diferentes. O extremo está agora a um passo de Michael Jordan, tido como o maior de sempre.

Sandocan promete show memorável

há 3 meses
Com um reportório de cerca de 50 músicas, Army Squad e Kalibrados realizam sábado o primeiro show solidário de Rap, no período “Covid-19″.

Kanye West oferece um Sherp Pro como prenda de aniversário a 2 Chainz

há 3 meses
Parece já não haver motivos para duvidar da fortuna de West, só em três meses, o rapper gastou o equivalente a três triliões de Kwanzas para a campanha eleitoral e, para fechar, ofereceu como presente de aniversário um Sherp Pro ATV ao seu amigo 2 Chainz.

7 de Setembro de 1996: O dia em que Tupac foi baleado e não mais voltou aos palcos

há 3 meses
apesar de existirem vários suspeitos e teorias, a polícia nunca chegou em uma conclusão oficial sobre quem teria disparado os 13 tiros contra o carro do rapper em 1996.

Beyoncé anuncia novo álbum intitulado “Black Is King”

há 5 meses
O novo álbum de Beyoncé é descrito como “uma biografia celebratória sobre a experiência negra no mundo” e chega às plataformas de stremming a 31 de Julho, mas já está disponível uma faixa no website da cantora.

AMA – Patrícia Faria reconhece que tinha música a concorrer na categoria errada

há 4 meses
Depois de alguma polemica em torno das músicas que concorrem no Angola Music Award (AMA), na categoria de melhor Semba, uma das artistas concorrentes teve a coragem de contactar a organização e, humildemente, dizer que a sua música não é Semba.

Burna Boy considera o novo álbum de Davido um “disquete”

há 2 semanas
Apesar de reunir referências como Nicki Minaj, Nas, Young Thug e Lil Baby, o novo álbum de Davido não “convenceu” o seu compatriota Burna Boy. O também músico chamou de disquete o “A Better Time”.

Prodígio: “Ser premiado em casa é sempre uma forma de lisonjeio, tem um sabor especial”

há 5 meses
Foi com a mixtape “O Alquimista” , em 2011, que Prodígio começou o sucesso. Na sequência, surgiram vários outros trabalhos, conquistou inúmeros prémios, o mais recente foi o de Melhor Artista de Rap. Em breve conversa com a Carga, o rapper de 32 anos manifesta os seus sentimentos em relação aos prémios e nomeações.

Arlindo Cruz volta a falar após 3 anos em convalescença

há 5 meses
Após sofrer um AVC, em 2017, Arlindo Cruz ficou internado por 1 ano e 3 meses no CTI. Depois de sair do hospital, o cantor permanece em tratamento em casa, com estrutura de home care, ao lado da família. Recentemente numa live transmitida no Instagram, o filho do cantor, Arlindinho, afirmou que o pai está a superar algumas sequelas do Acidente Cardio Vascular, e já começou a formar algumas palavras.

DH lança plataforma que vai permitir produtores levarem beats a músicos consagrados

há 3 meses
Denominado Drum Stars, o instrumento poderá fazer com que qualquer produtor entre em contacto com músicos consagrados e aproveitar vender e monitorizar seus beats, bem como promover a sua imagem.