Kuta: O artista plástico que leva a herança espiritual angolana ao mundo

Kuta Ndumbu é escultor, pintor e cineasta. É angolano e vive no Brasil há mais de 25 anos. Usa criatividade para transmitir a herança espiritual e territorial angolana, africana, no geral, ao mundo. 

Também por intermédio das suas obras, o artista plástico protesta a realidade angolana e ajuda a trazer à tona a poluição visual das cidades poeticamente forjada num cubismo remoto que sobrepõe as imagens.

Kuta entrou no mundo das artes muito jovem e tornou-se agora o mensageiro da espiritualidade ancestral negra “nkissi”. Está neste momento a preparar uma nova exposição, que inclui esculturas, pinturas e documentário.

É daquelas vozes que clamam pela transmissão do saber endógeno africano, mantém uma verticalidade totémica e evidencia o sagrado-profano e vida-morte.

Nasceu no Waku Kungu. Em que circunstâncias vai parar ao Brasil?
Sim, exactamente no Seles, mas cresci no Huambo, Bairro Acadêmico. Em 1989 por ocasião da aproximação do meu décimo oitavo aniversário e a obrigatoriedade em servir o exército num momento de guerra muito intensa e quente, fui levado a bater fuga para o exterior e o lugar escolhido pela minha família foi o Brasil, pela proximidade cultural e linguística. As circunstâncias foram extremas, porque não tinha parentes para me receber neste país, então, tive ajuda de instituições religiosas e, assim, passei a morar em sistemas de internato para coincidir com os estudos.

Que experiências mais lhe marcaram no mundo das artes plásticas desde que está no Brasil?
As experiências mais marcantes foi observar a herança africana de artistas como o mestre Didi da Bahia e a sua arte voltada pra espiritualidade do povo negro, me lembrou a força das esculturas cokwé e, com isso, veio o estudo da História da Arte na graduação em Artes Plásticas na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que ficou inconclusa por falta de dinheiro para custear os materiais necessários para acompanhar os estudos. Concluindo, a resposta: as obras do mestre Didi e a História da Arte.

Como é que faz para expor suas obras e em que partes do mundo já se apresentou?
Sempre passei por uma revisão de curadoria que analisa o resumo do tema apresentado por mim. A partir daí, analisamos o espaço de exposição e as possibilidades de adequação das obras no ambiente oferecido por eles. Estive na Argentina com áudio visual e três museus brasileiros, fora galerias de arte e instituições políticas e culturais. Sempre apresento um portefólio e um release do tema.

Suas obras são como que uma tradução da espiritualidade negra e busca pela ancestralidade. Por que opta por evidenciar esses elementos?
“Uma tradução da espiritualidade negra!” É uma afirmação que muito me encanta porque a minha busca é por evidenciar uma linha do tempo espiritual, onde nós somos a continuidade de um passado e fazemos o link com as gerações vindouras, através de cultivos agrários e ritualísticos de iniciações, tanto femininas como masculinas, em busca de um equilíbrio ecossistémicos com outros seres viventes e etéreos. Apresento em exposição os “nkissi”, que são a expressão angolana para designar ancestral. Evidenciar esses elementos revela minhas origens e defende nossa herança espiritual e territorial.

Parece ser uma obrigação nas artes plásticas a manifestação do conhecimento endógeno africano. É isso que sente nos seus momentos criativos?
Seguramente essa endogenia é uma herança quase visceral que nos lembra que uma árvore é, naturalmente, o totem primordial da humanidade por causa da sua verticalidade, que sugere elevar-se aos céus, tendo em si a árvore o status de imagus mendi, por ter o raiz entranhada no mundo dos mortos. O caule frequenta o mundo dos vivos e a copa da árvore sustenta o mundo dos deuses por isso, a árvore frequenta três mundos ao mesmo tempo. Com isso, meus nkissi são esculturas feitas de troncos de árvore em forma de tótemes. Sim, nos momentos de criação é como se fosse uma prece.

Que aspectos da realidade concreta mais lhe apraz pintar e porquê?
Os aspectos da realidade que mais me apraz é encontrar na poluição visual das cidades um aspecto poético de cubismo remoto na sobreposição de imagens: protestar! Falar do amor e da saudade.

Emprestou quase toda a sua juventude à arte. Como é que caracteriza a sua carreira neste momento?
Sou um pintor, escultor e cineasta. Sou um artista crítico e catalogado. Minha carreira é continuamente uma busca incessante pelo melhor da expressão artística.

Pelas suas vivências, o que acha que tem faltado para que as artes plásticas angolanas atinjam níveis como o do Brasil?
Para que Angola atinja um patamar semelhante ao do Brasil, na minha experiência, o Ministério da Cultura deve investir em curadorias que revelem talentos de mulheres e homens que se encontram desconhecidos, apesar de talentosos e, com isso, aplicar investimentos económicos para elevar a qualidade de materiais e assegurar uma renovação contingente na expressividade onírica dos elementos primitivos na dança na escultura no áudio visual, e com isso, encontrarmos contemporaneidade angolana, modernidade lincada ao antigo. Nossa antiguidade numa releitura feita por jovens expressoẽs que estão ainda no obscurantismo; investimentos em espaços de discussão dessas práticas como núcleos nas universidades onde se discute o destino de uma estética puramente nossa, sem perder de vista as nossas heranças de expressão religiosas e políticas; valorizar as religiosidades antigas do nosso povo ajuda muito a reconhecer o lado sensível do espirito e atribui força na modernidade que temos no íntimo, então, precisamos de olheiros de bom gosto pelo que é nosso, investimento nas mais variadas formas de arte e mais espaços de exibição desses feitos culturais. Mais qualidade no acabamento.

Está no Brasil há bastante tempo. Quando pensa em voltar a Angola ?Aguardo um convite de exposição para coincidir com a minha repatriação. Espero que seja para muito breve.

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