Promotor revela que os artistas é que pedem para “piratear” suas obras

Fotografia: João Victor

Para que suas músicas cheguem a zonas suburbanas, muitos artistas angolanos têm de recorrer a serviços de duplicidade, vulgo pirataria. Nesses serviços, o músico paga entre 200 mil a 1 milhão de Kwanzas para a promoção de 4 faixas, durante 45 dias.

Apesar de constituir crime, segundo a lei 15/14, de 31 de Julho, sobre a protecção de direitos de autor e conexos, bem como outras legislações complementares sobre a protecção da propriedade intelectual, Gutinho, que trabalha na área há 21 anos, insiste em dizer que não é, justificando que são os próprios músicos e produtoras que procuram pelos seus trabalhos.

Com medo de perder a credibilidade dos fãs, artistas e produtoras que recorrem aos serviços de Gutinho preferem não ser identificados. Entretanto, facto é que, para que a música atinja públicos de zonas menos desenvolvidas no país depende do processo de “pirataria”, tipificado como crime de contrafacção.

A Carga manteve uma conversa reveladora com Gutinho para saber mais sobre como funciona o processo de “pirataria” de obras musicais.

Promotor revela que os artistas é que pedem para “piratear” suas obras

Há quanto tempo vem a promover músicas no mercado informal?
Na verdade, já há 21 anos, desde 1999 até hoje a fazer promoção. Profissionalmente desde 2006. Já promovi, todo o músico da nossa praça. Todo o músico da nossa praça já passou nas minhas mãos.

O que envolve este tipo de divulgação?
O processo de divulgação passa por  via CD, Internet e pendrive. Tudo quanto é  dispositivo de música.

E como funciona?
O artista contacta-nos, dou o preço, ele faz a transferência e depois executo o trabalho.

Quanto custa uma promoção?
Depende. A promoção que envolve pendrives é mais cara. A mais barata é a do CD. Os preços variam, começando dos 200 mil Kwanzas para cima.

Imagine que apareça um artista com 4 músicas, quanto cobraria?
Estamos a falar de uma EP. Se for Kuduro fica em 200 mil Kwanzas para uma promoção de 45 dias. Se for um outro estilo, podíamos puxar para 500 a 700, a 1 milhão de Kwanzas. Depende da projecção e do tempo de promoção. Também temos pacotes de três meses, seis meses.

Quantos discos consegue reproduzir por dia?
Não digo dia, mas semanalmente uns dois mil CDs saem. Antes saía mais, mas actualmente apenas consigo dois mil CDs por semana.

Como é feita a distribuição?
Os rapazes o fazem. E não só cá, os CDs vão a outras províncias, porque as províncias consomem  mais CDs do que nós. Luanda como está mais evoluída, a maior parte dos CDs vão para outras províncias.

Em que províncias possui distribuidores?
Todas da parte sul, aí conseguimos chegar mais rápido. Mas tem distribuidores em todas as províncias, se não houvesse, o música não batia lá. Temos muitos parceiros, vinte ou 40. Cada província temos dois a três.

Artistas de que estilos é que mais procuram pelos seus serviços?
Já promovi todo o artista da nossa praça. Todo o artista da nossa praça já passou pelas minhas mãos. Respondendo, agora é relativo. Outrora os artistas que têm mais nome não ficavam atrás. O nosso mercado é muito extenso, se o artista optar só para cima, aqui em baixo não tem nada. A promoção de CDs e pendrives atinge até o cidadão da última carteira. A promoção dentro dos guetos. Qualquer pessoa ouve a música. Nem todo o mundo tem acesso à internet, por isso é que nós estamos ali.

Quantos músicos já solicitaram pelo seu trabalho?
Todos os artistas, todas as produtoras. Nós promovemos artistas de todos os estilos de música. A princípio quem mais nos procuravam eram os kuduristas, mas agora todos os estilos. Entretanto, hoje por hoje, artistas do o Ghetto Zouk, Afro, Naija, Afropop são os que mais nos procuram.

Este tipo de negócio constitui crime de contrafacção e viola a lei dos direitos do autor e conexos. Está ciente disso?
Não é um crime. O chamado “pirataria” é duplicar uma obra não autorizada. O que eu faço tem a autorização do cantor. É o próprio cantor que pede a partir do seu disco original. O disco não é pirata. O que torna pirata é copiar sem a devida autorização. Porque se fossem piratas os CDs que veem nas ruas com os miúdos não podiam passar pelas alfândegas. Não há nenhum artista em Angola que não recorre ao serviço de duplicidade, que vocês imprensa chamam de pirataria. Não existe. Todo o artista angolano recorre ao processo de duplicidade para promover sua obra. Todo.

O negócio é rentável?
É. Quando já se atinge um nome grande, é rentável. Com 21 anos de carreira, as pessoas dão mais credibilidade naquilo que faço. Sou o líder do grupo PMC- Promotores musicais consagrados.

Durante esses 21 anos, que experiências viveu e gostaria de partilhar connosco?
Muita coisa, desde a banalização do nosso serviço. Outrora, fugir da polícia económica. Mas todo o artista em Angola sabe deste processo de promoção. Não há artista que nunca passou por esse processo de duplicação da sua música. Não há.

Quais são seus maiores desafios?
Continuar a fazer o mesmo processo, mas evoluindo. Atingir outras metas.

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