Bonga: “Vivo só da música e isso é um exemplo que pretendo deixar para a juventude”

Com 400 composições musicais, Bonga é uma figura de consenso na cultura angolana, por ajudar a preservar e transmitir a tradição oral angolana à nova geração.

Seu incofundível legado, transformou-o na gema que é hoje, servindo de objecto de várias exaltações públicas e fonte de pesquisa bibliográfica. 

Cronologicamente,a trajectória artística de Bonga confunde-se com a sua idade. No passado 5 do corrente, festejou mais um ano natalício, no caso o 79° aniversário, que foi objecto de uma extensa entrevista ao Jornal Metropolitano, título das Edições Novembro.

Comprometido com a música há mais de cinco décadas, durante a qual, lançou mais de 30 discos, o artista prepara-se para colocar mais um álbum no mercado intitulado “Quintal da Banda”, com participação especial da cantora franco-argelina Camélia Jordana.

Em fase final de arranjos, o disco conta com 10 faixas musicais e traz, na sua essência, mensagens sobre Caxito, Carnaval dos bairros e danças do povo angolano e foi gravado em França, onde vai ser lançado, antes de ser distribuído para outros países.

Também  multi-instrumentista, como letrista, Bonga escreveu para Ary, Pérola, Patrícia Farias e tantos outros, tal como lembrou ao Metropolitano onde, entre muitos assuntos, falou sobre a trajectória, movimento cultural em Angola e o Semba.

MOVIMENTO CULTURAL EM ANGOLA

Como avalia o movimento cultural em Angola?

 algum movimento cultural no nosso país? Não sabia. Ando à espera desse movimento, não apenas de um, mas de vários movimentos culturais em vários bairros da cidade de Luanda. Antigamente, havia os centros recreativos, como “Mãe Preta” “Maxinde”, “Marítimo da Ilha”, “Botafogo”, onde os Kimbandas do Ritmo actuavam, entre outros.

Onde estão esses espaços?

Eram os centros culturais que fomentavam toda uma vivência e preservavam a nossa tradição. Os grupos tocavam e cantavam as coisas actualizadas dos bairros, com música bonita, dançarinos, coreografia, folclore e não só.

Se hoje esses espaços não existem como podemos falar em movimento cultural? Está a dizer que não temos movimento cultural?

Há várias tentativas, mas desfasadas do bom senso e de competências. Sou de opinião de que, no plano da Independência, deveriam estar incluídas as coisas que nos animam e dão continuidade a nossa identidade. Isso é muitíssimo importante. Se você não escrever isso vou te xingar. (Risos)

O que é que acha que deveria ser melhorado em termos culturais?

Primeiro, temos de ser amigos e respeitarmo-nos mutuamente. Quando a relação é baseada no respeito mútuo, isso deixa sempre subjacente um propósito muito importante: o nacionalismo. Se não houver nacionalismo, você vai cantar Rock, R&B, sons das Antilhas e do Brasil, para satisfazer o brasileiro, porque as novelas têm uma grande influência na nossa terra. Hoje, se pedir a alguém para cantar o canto da terra da mãe, do pai ou do avô, que lhe levou ao colo, provavelmente, não vai conseguir. Nós tivemos educação de casa, dos pais, da rua, com velhos e os vizinhos que residiam à nossa volta, que nos orientavam em relação aos procedimentos que devíamos ter na rua e em casa. Se cometéssemos alguma asneira, esses davam-nos cocos na cabeça e puxões de orelhas e íamos a correr para casa, sem problema. Hoje, se fizeres isso, pode nem sequer passar-te pela cabeça a “nvunda” que vais arranjar.

Em termos culturais, o que gostaria ver realizado nos próximos tempos em Angola?

Primeiro, rebuscar ou criar motivações para o reaparecimento de todos os grupos que existiram antigamente. Me alegra o movimento ímpar que, em Luanda, está a revolucionar o surgimento de escolas da dikanza. Muito embora os ritmos ainda não tenham atingido a perfeição, considero o gesto de uma grande mais-valia para a nossa cultura. Mas é preciso pensar também nos outros instrumentos que temos, como cacoxa, que é a nossa cambanza (arco com uma linha), igual ao que Kamosso tocava, o hungu, a marimba. Pensar no relançamento dos Marimbeiros de Duque de Bragança, para citar só um caso. No bom sentido, queria ver em Angola uma explosão cultural que nos dê a possibilidade de demonstrarmos aquilo que realmente somos. Em vez de imitarmos o que se faz na Europa, em Angola deveríamos aproveitar a televisão que temos para a promoção da nossa cultura, com programas genuinamente nacionais, sem desprimor para a dança africana. Os nossos assimilados gostam muito de imitar as coisas que vêm de fora, que eles consideram clássico. Ali na Samba, os miúdos estão a aparecer com violinos…

 SOBRE O SEMBA

Considera o Semba a essência da música angolana?

Se eu disser que não, estaria a contrariar-me. Eu nasci, cresci, vivi e vivo o Semba.

Mas existem outros sons?

Se existem, então evoluam com eles, dêem promoção, desenvolvam a tónica musical para, posteriormente, fazermos uma avaliação daquilo que a gente vai ver e ouvir. Porque, por enquanto, é o Semba que manda que, para nós, foi sempre um factor de unidade, que dançamos no quintal com pé descalço e, lá fora, com os vizinhos na areia vermelha. É por causa disso que o Semba conseguiu sempre resistir às guerras internas que se moveram contra ele. Estou a falar do tango, rumba, boleiro, samba e baião brasileiro, merengue latino-americano e plena do Congo. O Semba teve que resistir a todas essas correntes, porque já naquele tempo havia a tendência de ouvir mais música do outro que a nossa. O nosso problema reside no complexo que temos de encarar a nossa realidade como ela é, preferindo imitar o que é do outro. Impõe-se neste momento uma mudança de mentalidade, que demora a chegar e nem sei mesmo quando vai chegar.

Qual é a situação do Bonga?

Tenho o suficiente para viver e acomodar os meus. Quando digo os meus, estou a falar dos filhos e netos. Mas não deixo de ajudar alguns contemporâneos necessitados.

Vive só da música?

Vivo só da música e isso é um grande exemplo que pretendo deixar para a nossa juventude. Sou dos poucos artistas africanos, profissionais de facto. Faço as minhas músicas com base nas composições que crio e tenho muitos trabalhos realizados, incluindo vídeo clips que, infelizmente, muitos em Angola não conhecem.

Juridicamente, como é que protege as suas obras?

Os meus discos estão inscritos na maior sociedade de autores e compositores do Mundo, em França. Cada música que passa em qualquer rádio na Europa, é descontado uma percentagem para mim. Com 400 músicas, isso dá-me um certo à vontade, ao ponto de parar de trabalhar por algum tempo, sem grandes exageros. Muitos cantores angolanos não sabem que isso existe.

Os franceses são os que, a nível da Europa, melhor defendem a obra artística. Quanto recebe por cada música que toca numa rádio?

Depende muito da obra. Por exemplo, há um indivíduo francês que, há tempos, cantou uma música do Bonga e vendeu 400 mil discos. Comumamúsica num disco que vendeu 400 mil cópias, é sempre um bom pacote.

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